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    January 30

    Árvore

    ÁRVORE

     

    Mil desenhos loucos te
    tatuam. Mil formas te
    formam, deformam e te
    fazem ser. Abraço-te e sinto
    minhas formas fundirem-se
    com as tuas.
    Sorvo o instante de nossa
    impossível união e retiro-me
    com meu corpo marcado,
    para sempre, pelo teu.

    Se eu pudesse, subiria à mais
    alta de tuas ramadas,
    escolheria o mais morno dos
    teus galhos e lá faria um
    ninho para os meus desejos.
    Depois, uma a uma, enfileirava as
    canções que o vento canta
    nas tuas folhas, juntava-lhes os
    risos dos pássaros e
    deixava-me sonhar apenas por um
    segundo. Se eu pudesse ...

    Teu corpo, com cheiro de terra,
    detém o meu passo. O que
    terá feito aquela ramada crescer
    tão direita em direção à
    nascente e
    aquela outra descrever tantas e
    tão caprichosas curvas? O que
    terá feito o teu tronco tão terno
    de tocar e macio de sentar?
    Retomo devagar o passo,
    mas, um pouco adiante, paro e
    olho-te de novo; e o que me
    terá detido, me feito te tocar e
    ... escrever estas coisas?

    Teus mapas (maravilhosas
    imperfeições), marcados ao
    acaso em teu corpo, são
    caminhos por onde navegam
    as canoas da minha imaginação.
    Se uns dias, ao passar
    indiferente, não os noto,
    não quer dizer que esteja longe
    de ti. Quer dizer (terrível
    confissão!) que estou longe
    de mim mesmo.

    Pedro Veludo